Terça-feira, 8 de setembro de 2009 17h29                                                                                                           Bookmark and Share Subscribe
O futuro da Inteligência Artificial
Paula Rothman
INFO Online

 SÃO PAULO – A internet não vai ganhar vida própria, robôs nunca vão sentir emoções e não existe um filme hollywoodiano sequer que retrate IA com precisão.

Pelo menos, é nisso que acredita Eric Horvitz, ex-presidente daAssociation for the Advancement of Artificial Intelligence (AAAI), a Associação para os Avanços da Inteligência Artifical, e pesquisador daMicrosoft Research, organização dedicada à ciência da computação e engenharia de software.

Como presidente da AAAI, Horvitz organizou encontros e discussões a respeito do futuro da inteligência artificial. Em um desses eventos, a International Joint Conference for Artificial Intelligence (IJCAI), os cientistas concluíram que são remotas as possibilidades da tecnologia se desenvolver até que passe “evoluir” sozinha – como acontece com a Skynet, dos filmes “O Exterminador do Futuro”. Mas levantaram um ponto interessante a respeito de novos vírus “conscientes”, capazes de apreender informações pessoais em redes sociais e gadgets (como os smartphones) e replicar o comportamento do usuário em momento oportuno.

Após cumprir o mandato de dois anos à frente da AAAI, Horvitz assumiu, em julho, o novo cargo de Immediate Past President – ou último presidente. 

Fã de Arthur C. Clark (um de seus livros favoritos é “Childhood´s End”) Horvitz, no entanto, não acredita que a realidade passe perto das previsões da ficção. E não teme os avanços que a tecnologia pode trazer. “Se as pessoas conhecessem mais, elas ficariam mais empolgadas com o futuro”, diz. Abaixo, ele responde à INFO uma série de perguntas sobre os mitos e verdades da inteligência artificial.

INFO Por que a maior parte das pesquisas em IA, hoje, não está voltada para a construção de um sistema com “nível humano”?

HORVITZ Inteligência artificial é um campo vasto de questionamentos voltados para aprofundar o conhecimento dos mecanismos por trás do pensamento e da inteligência, com sua incorporação a sistemas computacionais.


Eric Horvitz, da AAAI: "Nós ainda não entendemos o que é preciso para desenvolver IA em nível humano"

Cientistas tentam resolver com suas pesquisas inúmeros problemas, como aprendizado, razão e tomada de decisões em máquinas. No entanto, as pesquisas mais bem sucedidas não estão voltadas para a construção de sistemas de IA com “níveis humanos”, pois este seria um desafio difícil e pouco específico. Ao invés disso, nós focamos em subproblemas no caminho da construção de inteligências sofisticadas mais integradas. Essas pesquisas nos subproblemas irão invariavelmente contribuir para nossa habilidade de compreender melhor as bases da inteligência como um todo, ligadas a habilidades como atenção, reflexão, criatividade e outras características do intelecto humano.

Então, a inteligência artificial em um “nível humano” é possível ou é apenas um sonho da ficção científica? E se é possível, em quanto tempo ela poderá ser feita?

Nós ainda não entendemos o que é preciso para desenvolver IA em nível humano – nem exatamente o que isso significa. De qualquer forma, se alguém acredita que o comportamento e pensamento humano são baseados em um processo computacional, eu não vejo razão teórica para que um processador similar ou análogo não possa ser construído um dia - mas não vejo isso acontecendo tão cedo. Sistemas em desenvolvimentos que mostram diferentes aspectos da competência humana podem levar centenas de anos – se nós algum dia formos capazes de dominar tais métodos. No entanto, muito antes desse prazo, veremos avanços na IA que serão aplicados em áreas como saúde, transporte e educação.

A ideia de uma “singularidade”, a reação em cadeia na qual as máquinas seriam capazes de construir outras ainda melhores, não deve então acontecer em um futuro próximo?

Há uma tendência de se olhar para a tecnologia como tendo uma “mente” própria – e evoluindo por conta própria. Mas é importante ter noção de que as pessoas é que são fontes da tecnologia, e que elas tem o poder de tomar decisões. Durante o Presidential Panel on Long-term AI Futures, pesquisadores refletiram sobre visões extremas da IA que parecem permear o público em geral e que com certeza estão representadas em filmes, na ficção científica... A visão radical inclui perspectivas catastróficas e utópicas. No geral, refletimos que essa possibilidade é irreal por uma série de motivos, incluindo nossa habilidade de guiar, controlar, monitorar e desenvolver tecnologias.

Então, a internet não está prestes a se tornar conscientes?

Não.

Se robôs dotados de consciência e IA existissem, eles poderiam “sentir” emoções reais?

Não.

No mesmo evento, foi mencionado que uma preocupação mais importante seria a criação de vírus capazes de imitar o comportamento digital de humanos. O quão real isto é?

No encontro, revimos a possibilidade de que um dia pessoas, organizações ou até mesmo governos façam uso dos avanços da IA para propósitos malignos. Até onde sabemos isso ainda não aconteceu. No entanto, não é difícil imaginar como os futuros vírus de computador possam ter capacidade de aprendizado e, assim, ganhar acesso a um grande número de informações sobre pessoas. Pense nos dados que as compartilhados via aplicativos de celular, desktops, atividades online, e-mails e mensagens de texto. Diversos palestrantes concluíram que devemos investir em pesquisas nessa área, como novos esforços de segurança, criptografia e pesquisa voltadas para esta área. Interessante pensar que teremos que aumentar nosso potencial de IA para combater esse problema futuro.

Existem limites éticos para o desenvolvimento de IA?

Eu não diria limites. Questões éticas e desafios irão aparecer, assim como eles aparecerão em outras áreas da tecnologia. É nosso dever, como cientistas e cidadãos, refletir sobre a influência da tecnologia nas pessoas e na sociedade. Trabalhamos com o objetivo de fornecer ferramentas valiosas e sistemas que irão aumentar a qualidade de vida de muitas maneiras. No entanto, podem haver obstáculos pelo caminho, e temos que ser proativos para combatê-los.

Em sua opinião, por que este tema fascina tantas pessoas, em tantas culturas diferentes?

Acredito que somos muito interessados na essência da nossa natureza – e que nossa consciência e intelecto são peças centrais de quem nós somos. A inteligência nos tornou “senhores” do mundo. A ideia de ter que competir com entidades mais inteligentes, sejam criaturas alienígenas de outro planeta ou máquinas que nós mesmos fizemos, é assustadora para as pessoas. Não é à toa que os filmes de ficção científica focam nesses cenários com tanta frequência.

Qual filme de ficção melhor representa um possível cenário futuro da IA?

Eu não conheço um filme de ficção científica que faça um bom trabalho nessa tarefa – já que são as visões extremas que vendem ingressos de cinema.

Você acredita que as pessoas se preocupam demais com IA?

Acredito que muitas pessoas se preocupam demais. Acredito que as pessoas deveriam ficar empolgadas e esperançosas com a possibilidade dos avanços da IA influenciarem suas vidas de maneira positiva – e que elas ficariam feliz com o possível futuro se aprendessem mais sobre inteligência artificial.


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